Reabilitação Neuro-Oclusal – Conceituação

Autor: Dr. Renato Chierighini

A história da reabilitação neuro-oclusal confunde-se com a do seu criador. Mais importante do que descrever datas é mostrar ao leitor o processo de gestação, nascimento e desenvolvimento da RNO. Uma história comum à de todas as grandes idéias que contribuiram para o avanço da humanidade em todos os campos do conhecimento.

Ao contrário do que muitos imaginam, a RNO não é uma técnica ortodôntica, ortopédica ou ortopédica funcional. Não é uma técnica, pois não se limita a preconizar determinados procedimentos terapêuticos. Como Dr. Planas dizia: “As técnicas são superáveis, mas a fisiologia é uma só.”

A ortodontia, com todas as suas “ramificações” (ortodontia fixa, ortodontia móvel, ortopedia facial, ortopedia funcional dos maxilares, etc) tem por objetivo principal a harmonia dos arcos dentais. Parte-se do pressuposto, portanto, de que já há uma patologia. Muitos métodos de identificação e classificação dessas patologias foram criados desde os primeiros princípios e classificações de Angle e muitas técnicas foram propostas desde então.

Os princípios da Reabilitação Neuro-Oclusal não se restringem apenas ao diagnóstico e terapêutica de alterações morfológicas já existentes, mas, principalmente, à prevenção dos problemas periodontais (a segunda principal causa de perdas dentais). Todo o conjunto de procedimentos preventivos e terapêuticos da RNO tem por objetivo principal a prevenção e o tratamento do “trauma oclusal”; importante fator etiológico dos problemas periodontais. Neste contexto, a RNO lança mão desde procedimentos que não envolvam aparatologias, como os ajustes oclusais, até procedimentos que envolvam técnicas ortodônticas e/ou ortopédicas funcionais, assim como, em tratamentos tardios, pode utilizar a Reabilitação Oral como “ferramenta” de restabelecimento da função mastigatória.

Portanto, a RNO não é uma parte da ortopedia funcional dos maxilares. Ao contrário, a ortopedia funcional dos maxilares pode ser uma ferramenta de obtenção de cura de um paciente em uma determinada fase de seu tratamento. Em outras palavras, a ortopedia funcional dos maxilares, assim como todas as outras “ramificações da ortodontia”, podem fazer parte de um vasto conjunto de procedimentos da RNO. Obviamente, a forma como um “reabilitador neuro-oclusal” utiliza essas ferramentas é bem diferente daquela utilizada comumente pelos ortopedistas ou ortodontistas ( principalmente em função de sua concepção de diagnóstico, visão do normal e objetivo a ser alcançado).

Para que entendamos melhor o que acabo de dizer, analisemos o processo pelo qual Dr. Pedro Planas chegou à concepção final da reabilitação neuro-oclusal.

Desde criança, Dr.Planas acompanhava os trabalhos de prótese no laboratório montado em sua casa por seu pai, que era cirurgião-dentista. Talvez por esse motivo tenha aprendido a gostar da odontologia e seguramente essa foi a causa principal de uma de suas afirmações: “Conhecer a prótese é o primeiro passo para conhecer mais tarde a especialidade odontológica”. Desde o início de sua carreira profissional, Dr.Planas preocupou-se com o problema periodontal. Já naquela época, ao analisar os dois principais fatores de perda dental: a cárie e o problema periodontal; constatou que o primeiro estava sendo muito bem conduzido, com a evolução dos materiais restauradores; a vinda dos motores de alta rotação; a sensível melhora na qualidade das brocas; o desenvolvimento de melhores materiais forradores de cavidade; e, principalmente a prevenção através do flúor.

No entanto, Dr. Planas observou que o segundo principal fator de perdas dentais (o problema periodontal), ainda estava muito pouco esclarecido, uma vez que os procedimentos preventivos e terapêuticos limitavam-se às técnicas de escovação; às raspagens e curetagens. Em outras palavras, com a evolução dos estudos microbiológicos, a odontologia voltou-se completamente para o fator “placa bacteriana” como a principal e definitiva etiologia do problema periodontal. No entanto, algumas perguntas ficavam no ar: Por que alguns pacientes com perfeita higienização tinham problemas periodontais graves, a ponto de perderem todos seus dentes por falta de implantação óssea? Por que indivíduos sem absolutamente nenhuma higienização não desenvolviam nem mesmo uma pequena inflamação gengival?

Ao se fazer essas perguntas, Dr. Planas percebeu que havia algo mais do que simplesmente uma colônia bacteriana na etiologia da doença periodontal…o desequilíbrio oclusal.

O periodonto ou articulação alvéolo-dentária tem um comportamento biológico idêntico ao de todas as demais articulações do corpo humano. Uma sobrecarga ou falta de requisição de trabalho gera potencialmente o mesmo processo de degeneração da articulação. Para nós isso significa que, sempre que houver um desequilíbrio oclusal, haverá articulações alvéolo-dentárias sobrecarregadas e/ou sem requisição de trabalho. Não estou dizendo com isso que a RNO desconsidera o fator placa bacteriana, mas sim que o potencial patogênico dessa placa será tanto maior quanto mais desequilibrada estiver uma oclusão.

Voltando para a história da RNO. Dr. Planas passou a focalizar seus estudos em devolver à boca de seus pacientes o equilíbrio funcional para conseguir uma função fisiológica das articulações alvéolo-dentárias. Observou que, para conseguir esse equilíbrio, muitas vezes tinha que modificar completamente a posição das peças dentárias; modificar a situação do plano oclusal; e desenvolver as bases ósseas quando as mesmas estavam “atrasadas” em seu crescimento. Neste caminho para conseguir bocas equilibradas, Dr. Planas foi: fundador da Sociedade Espanhola de Periodontia (SEPA); fundador e primeiro presidente da Sociedade Espanhola de Ortodontia (SEDO); membro honorário da Sociedade Francesa de Ortopedia Dento-Facial; membro honorário do Clube Internacional de Morfologia Facial (França); e, professor de prótese das Faculdades de Medicina de Madri e Barcelona.

Com o tempo, Dr. Planas observou que seus resultados não eram satisfatórios. Muitos casos tratados com técnicas ortodônticas fixas, móveis ou ortopédicas tinham grande porcentagem de recidiva e o problema periodontal, na maioria deles, persistia. Além do mais, todas essas técnicas terapêuticas eram empregadas em pacientes que já apresentavam alterações morfológicas; ou seja, não se trabalhava em prevenção. A partir desses questionamentos, desenvolveu-se toda a Reabilitação Neuro-Oclusal (RNO).

Com sua inteligência ímpar nos ensinou o que é uma boca equilibrada; nos descreveu todo o processo da gênese do sistema estomatognático e o mais impressionante; observando um crânio, decodificou as chamadas “Leis Planas de Desenvolvimento” que descrevem os mecanismos fisiológicos de crescimento, adaptação e manutenção do equilíbrio do aparelho estomatognático.

Nos casos onde já existiam alterações morfológicas, Dr. Planas experimentou todos os tipos de técnicas ortodônticas e ortopédicas disponíveis até então e avaliou seus resultados. Pouco a pouco verificou que em maior ou menor grau, todas as aparatologias tinham um componente de força mecânica e não provocavam as respostas fisiológicas das Leis Planas. Graças a essa insatisfação, Dr. Planas viu-se obrigado a desenvolver sua própria aparatologia (placas Planas, Equi-Plan, Planas composto, e outros) e, mais do que isso, desenvolveu procedimentos preventivos (ajustes oclusais, recursos de resina compostas, pistas diretas) e também criou uma série de procedimentos relacionados ao tratamento tardio (ajustes oclusais, próteses parciais que não impedem o cumprimento das Leis Planas, próteses em “escalera” e procedimentos específicos para a construção de próteses totais equilibradas).

Nesse caminho de desenvolvimento da reabilitação neuro-oclusal houve uma outra dificuldade: os métodos de diagnósticos até então limitavam-se à avaliação clínica, radiográfica e a análise de modelos (não relacionados). No que se refere à avaliação clínica, a RNO propõe o chamado “diagnóstico funcional” que não se limita a simplesmente descrever as alterações morfológicas da boca, mas, essencialmente, observa a “dinâmica funcional” da mesma. Com relação às análises radiográficas (principalmente em se tratando da telerradiografia em norma lateral), Dr. Planas verificou que eram pouco conclusivas, na medida em que nos davam uma imagem apenas bi-dimensional e, além do mais, não acreditava na possibilidade de se prever o crescimento através de cefalometrias obtidas a partir das telerradiografias, uma vez que que os “estímulos paratípicos” não eram levados em consideração. Criou-se então a “Análise gnatostática Planas”. Essa análise nos permite ter uma visão tridimensional da boca e, consequentemente, diagnosticar com mais precisão as alterações de desenvolvimento ósseo e de posição dental.

Durante esses anos de desenvolvimento da RNO, Dr.Planas ganhou muitos admiradores e discípulos, o que o fez criar o CIRNO (Club International de Rehabilitación Neuro-Oclusal). Desde sua criação, até o falecimento do Dr.Planas (em 1994) somente eram admitidos como membros do CIRNO aqueles que eram convidados por ele. A Clínica do Dr.Planas (Dentoclinic) na cidade de Barcelona sempre esteve aberta para todos os que se interessassem pela RNO.

Posteriormente várias associações de RNO foram criadas (espanhola, francesa, belga, brasileira, colombiana, venezuelana, mexicana, italiana) e o CIRNO passou a ser uma “confederação” dessas associações. Desde 1962, o CIRNO promove anualmente o Congresso Internacional de Reabilitação Neuro-Oclusal onde trabalhos e pesquisas de “reabilitadores neuro-oclusais” são mostrados e debatidos. Atualmente, todos os sócios de Associações oficiais de Reabilitação Neuro-Oclusal são automaticamente considerados membros do CIRNO.

Com seu trabalho científico e comprovações clínicas de mais de 60 anos, Dr.Planas adquiriu respeito e admiração em todo o mundo, e algum tempo antes de falecer recebeu sua principal honraria: membro da Real Academia de Medicina da Cataluña. Um título conferido pelo rei da Espanha somente aos mais destacados do mundo científico.

Atualmente, a RNO é divulgada e desenvolvida pelas associações nacionais. Várias teses de mestrado e doutorado começam a surgir (inclusive no Brasil) e comprovam cientificamente os princípios da RNO. A “Dentoclinic” continua recebendo estagiários, que são orientados pelo Dr. Carlos Salvador Planas (neto do Dr.Pedro Planas) e pela Dra. Catalina Canalda (ambos companheiros do Dr.Planas de muitos anos). Vários cursos de formação em RNO foram criados, tanto na Europa como no Brasil. Além do Congresso anual do CIRNO, congressos nacionais também são promovidos por todas as Associações ligadas ao mesmo.

Há muito trabalho pela frente, mas estou convicto que pouco a pouco o mundo científico reconhecerá a importância da Reabilitação Neuro-Oclusal e milhões de pessoas em todas as partes do mundo poderão se beneficiar de uma verdadeira postura preventiva e “curadora” da odontologia.

Ref. Bibliográfica: “Rehabilitação Neuro-Oclusal – Pedro Planas”

Renato Chierighini

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