O uso do Ângulo Funcional Mastigatório Planas (AFMP) na reabilitação protética com implantes

Autor: Dr.William Buelau


Os implantes ósseointegrados são atualmente um recurso confiável nos tratamentos odontológicos, desde que sejam respeitados os protocolos para seu uso, seja na fase cirúrgica como na protética.

O sucesso de qualquer reabilitação oral com o uso de implantes, seja de um elemento ou mais, está relacionado à uma série de fatores, dentre os quais o mais importante sem dúvida é o correto planejamento cirúrgico feito pelo cirurgião e o protesista.

Qualquer tratamento é dividido em duas fases distintas, a fase cirúrgica, inicial e a fase protética, final. Uma vez confirmado o sucesso da primeira fase, com o posicionamento adequado dos implantes e sua osseointegração, torna-se importantíssimo um correto planejamento protético, sua execução seguindo-se os protocolos de moldagem, escolha dos materiais e por fim o ponto mais crítico que é a oclusão, fator este, no qual reside o sucesso e longevidade do tratamento.

Uma vez que a prótese esteja em posição, faz-se necessário uma correta avaliação oclusal o que é realizado com ajustes oclusais, principalmente com desgastes seletivos. Como será demonstrado, há diferenças entre a forma de fazê-lo com dentes e implantes. O Ângulo Funcional Mastigatório de Planas (AFMP) é uma ferramenta muito importante para que possamos determinar o lado preferencial de mastigação do paciente, mantendo-o ou alterando-o conforme o caso.

Se nas excursões laterais mandibulares, também chamadas de bordejantes, o aumento da dimensão vertical é o mesmo para a direita e esquerda, podemos assegurar que o indivíduo mastiga por ambos os lados, indistintamente e alternadamente. Mas o mais frequente é que o aumento da dimensão vertical seja distinto de cada lado e, neste caso, podemos afirmar sem medo de errar que o indivíduo em questão mastiga pelo lado em que o aumento é menor, ou seja, o lada da “mínima dimensão vertical” (Planas, 1980), conforme figuras.

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Observar a diferença entre os AFMP entre o lado esquerdo e direito.

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O mesmo caso após a reabilitação protética realizada, buscando-se equilíbrio entre os AFMP

DENTE E IMPLANTE

O periodonto assim como as articulações têmporo-mandibulares possuem uma inervação e vascularização similar, com uma rede de espirais que com o atrito das superfícies oclusais durante a mastigação bombeiam e superexcitam os terminais neurais dos periodontos. (PLANAS, 1980).

Como o coeficiente de viscoelasticidade de dente e implante é diferente (BROCARD, 2000), assim como a propriocepção (JAKOBS e VAN STEEBERGHE, 1991) devemos estar atentos quando realizamos ajuste oclusal em próteses sobre implantes.

Se no dente como explicado, buscamos estímulos de atrito vertical e horizontal quando da mastigação mantendo a saúde do periodonto, no implante devemos evitar forças laterais ou transversais buscando mais carga no eixo vertical do mesmo.

IMPLANTES ÓSSEOINTEGRADOS

A ausência de ligamentos periodontais, reduz a capacidade proprioceptiva dos implantes sendo este o fator diferencial entre um ajuste oclusal realizado em dentes, próteses sobre dentes e em próteses sobre implantes.

Apesar da presença de receptores gengivais e periostáticos que conseguem pelo fenômeno vicariante desenvolver uma certa propriocepção em implantes, esta ainda assim fica muito aquém da de um dente natural.(BROCARD, 2002)

Existe uma diferença considerável de mobilidade axial e lateral entre dentes e implantes. Enquanto um dente apresenta uma mobilidade axial de 30µm e lateral de 50 a 100µm, os implantes apresentam uma mobilidade muito mais reduzida, sendo a axial de 5µm (6 vezes menor) e a lateral de 10 a 50µm (2 a 5 vezes menor) (BROCARD, 2002).

Na presença de forças que aumentam, a mobilidade de um dente é inicialmente mais pronunciada, tornando-se depois regular. Para um implante, ela é progressiva. Podemos desta forma imaginar o trauma provocado por uma prótese desajustada.

ESCOLHA DO MATERIAL PARA REABILITAÇÃO PROTÉTICA SOBRE IMPLANTES

A escolha do material das próteses sobre implantes é também objeto de estudos e de inúmeras reflexões, até mesmo de controvérsias. As próteses mandibulares “sobre pinos” de Branemark são de resina; os bons resultados a longo prazo destas reconstruções podem sustentar a resina como material de escolha sobre os implantes.

No entanto, os princípios de estabilidade dos materiais não aceitam muito bem as medíocres qualidades mecânicas da resina: o grande desgaste provoca, a médio prazo, o alargamento dos contatos oclusais (hiperatividade muscular), o desaparecimento da morfologia dentária (perdas das guias) e a modificação das relações com os dentes antagonistas (erupção e / ou perda de guias).

A porcelana é um material duro e parece transmitir a onda de choque dos contatos oclusais para as estruturas mecânicas (implante, parafuso de travamento) e para interface osso-implante (LUCCHINI et al., 1990), o que poderia constituir um risco de perda da ósseointegração, mesmo se não fosse provado que a distribuição das contrações é diferente segundo o material (PIERRISNARD e AUGEREAU, 1996). Além disto não se usa a porcelana de baixa fusão, pois ela pode criar, ao contrario, uma abrasão dos dentes naturais antagonistas.

As ligas de ouro, cujas qualidades mecânicas são as que mais se aproximam daquelas do esmalte dentário, tem uma dureza variável.

Novos materiais para a realização das faces oclusais tentam aproxiamar-se das propriedades mecânicas dos dentes naturais: cerâmicas menos duras ou compósitos mais resistentes.

O contexto dentário é freqüentemente díspar: os materiais das faces oclusais são de natureza variada e suas relações inadequadas podem provocar, em último caso, interferências ou “perdas de oclusão” (CLAYTON, 1995). A busca da homogeneidade das faces oclusais deve ser uma preocupação constante.

A dificuldade para o profissional é de escolher um material cuja dureza seja bem apropriada aos materiais antagonistas.

O desgaste não pode e não deve ser evitado; trata-se de controlar o coeficiente induzido pela escolha do material, bem como o do esquema oclusal e de verificar ao longo do tempo a perenidade ou a evolução das faces oclusais. (BROCARD, 2002).

AJUSTE OCLUSAL EM PRÓTESES SOBRE IMPLANTES

Nos primitivos, que tinham uma dieta dura e fibrosa, existia um desgaste natural da superfície de atrito dos dentes. Com isto, havia uma diminuição progressiva dos AFMP ao longo da vida destes indivíduos. Este desgaste era fisiológico, assim como o é na maioria dos mamíferos.

No homem civilizado por sua vez, em função de uma dieta pobre em fibras e macia, com interferências como restaurações e próteses realizadas com materiais que apresentam coeficientes de resiliencia diferentes da dos dentes naturais, já não há um desgaste tão acentuado da superfície oclusal dos dentes e na maioria dos casos (78% em media) a mastigação é unilateral viciosa apresentando AFMP diferentes dos dois lados. A alteração dos AFMP na maioria dos casos é realizada com desgaste seletivo.

A forma e os materiais para se realizar um ajuste oclusal, variam de autor para autor. O importante porém, é o resultado final. Para isto os itens de maior importância são saber onde fazer o desgaste e quanto desgastar.

O número de implantes e o tipo de prótese a ser usada são fatores determinantes para o tipo de oclusão dinâmica que iremos adotar. Como na maioria dos casos devemos evitar cargas laterais sobre os implantes, quanto maior (agudo) for o Ângulo Funcional Mastigatório de Planas, menor será a incidência destas cargas. Podemos alterar o lado preferencial de mastigação poupando os implantes ou equilibrá-los conforme o caso.

Em quase todas as situações, podemos ajustar a oclusão dos pacientes de forma que os Ângulos Funcionais Mastigatórios de Planas (AFMP) sejam iguais ou muito próximos, propiciando desta forma uma mastigação bilateral alternada, mastigação esta que buscamos na RNO.

O que devemos observar no caso de reabilitações com implantes é somente a inclinação dos AFMP ou seja, quando necessitamos cargas mais verticais devemos mantê-los mais fechados e quando não, podemos mantê-los mais rasos (abertos, mais próximos a zero).

CONCLUSÃO

Com tudo que foi apresentado, podemos afirmar que o conhecimento e uso do Ângulo Funcional Mastigatório de Planas e obviamente de toda a filosofia da RNO, nas reabilitações protéticas sobre implantes, é fundamental para que possamos capacitar o paciente a uma mastigação adequada à sua situação, preservando a região periimplantar e também todo o sistema estomatognático da melhor forma possível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BROCARD, D – Oclusão, Principios Básicos, Artmed Editora, cap. 10, p-101.

CLAYTON, J. A. – Toujours plus d’intégration. Implant 1995; 1 : 83-4.

JACOBS, R., VAN STEENBERGHE, D. – Comparative evaluation of the oral tactile function by means of teeth or implant-suported prostheses. Clin Oral Implants Res, 1991; 2: 75-80

LUCCHINI, J. P., et al., – La Pro-thèse partielle fixeé sur implants ostéo-int’grés vises. Cah Prothèse, 1990; 70: 3549

PIERRISNARD, A. S., AUGEREAU, D. – Comportement mécani-quedes implants et matériau prothétique. Implant 1996; 2:17-28

PLANAS, P. – Ley Planas de la Mínima Dimensi;on Vertical y Ángulo Funcional Masticatório Planas. In: ________ Rehabilitación Neuro-Oclusal (RNO). Barcelona: Edit> Científicas y Técnicas, S.A. Masson Salvat, 2ª. Edición, 1994.

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