O acerto e o alcance da RNO

Marilis Ferreira De Francisco


ACERTO DA RNO

Pedro Planas, em seu livro Reabilitação Neuro Oclusal, através de  seu enorme cabedal científico,  cultura antropológica e visão humanitária, nos legou as determinantes de uma oclusão equilibrada, tanto para a  dentição decídua  como para a dentição permanente,   tanto para o  modo  estático quanto para o dinâmico. Nos ensinou a atingir essas determinantes através de tratamentos  feitos com desgastes seletivos, pistas diretas, ou aparatologia. Nos mostrou  a  veracidade de seus conceitos desvendando as leis que regem o desenvolvimento do sistema estomatognático.  Nos mostrou como é atingido o equilíbrio oclusal e como ele é responsável tanto pelo desenvolvimento  normal quanto pela  manutenção da homeostase do sistema estomatognático, durante toda a vida do indivíduo.

Segundo Pedro Planas, para que haja  equilíbrio  oclusal estático, com  os dentes ocluidos em oclusão cêntrica (OC) ou seja, na  posição de intercuspidação máxima (PIM), deverá haver toque dental  concomitante em todos os dentes das arcadas.  Nesse ponto os conceitos da RNO são semelhantes aos de grandes nomes da odontologia.7,13,19

Em oclusão cêntrica, além da necessidade de todos os dentes tocarem seus antagonistas, ele expressou a  necessidade da oclusão   dar  em coincidência com a  posição de repouso da mandíbula quando em relação cêntrica (RC).  A relação cêntrica é a posição da mandíbula quando em repouso, sem toques dentais e  que depende apenas tensão da musculatura mastigatória.  Na RC cêntrica verdadeira os músculos elevadores da mandíbula devem estar em tônus de repouso, para a mandíbula esteja realmente centralizada em relação ao crânio.  O conceito de Planas de que a OC deve ser coincidente com a posição mandibular em RC é cientificamente correto, porque  embasado nos  resultados de  trabalho de muitos pesquisadores do sistema neuromuscular do sistema estomatognático, feitos  ao longo de muitas décadas.8,14 Pedro Planas está entre os autores que são intransigentes quanto a essa coincidência, pois preconiza que a oclusão funcional deve sempre coincidir com a oclusão cêntrica.

Divergindo  dessa posição, existe  na bibliografia a denominação oclusão habitual, que é a posição de intercuspidação  máxima do indivíduo e que pode ou não coincidir com a oclusão cêntrica, e  sem vistas à relação cêntrica. Alguns  autores tomam essa PIM  como sendo normal e correta para aquele indivíduo. Se a oclusão habitual  não for coincidente com a oclusão cêntrica, e com a  relação cêntrica, os côndilos não estarão centrados nas cavidades articulares e  os músculos pterigóideos laterais, que mantêm a mandíbula  nesta sua posição excêntrica, tornam-se hiperativos. Por ação reflexa, também seus oponentes, que são  os feixes posteriores do músculo temporal,  ficarão tensos,  sendo fator de desequilíbrio do sistema.7   Essa é  a  primeira separação das águas entre a RNO  e alguns autores modernos, mostrando o acerto de Pedro Planas quanto ao aspecto estático da  oclusão.   Toques dentais   bilaterais  e concomitantes dão equilíbrio e estabilidade à  oclusão, mas é sua coincidência  com a relação cêntrica muscular (RCM),  em que todos os músculos mastigatórios estão em seu tônus de repouso, que dá  à musculatura mastigatória a possibilidade de trabalho fisiológico.

Qualquer desvio da  oclusão cêntrica  em relação a RCM é fator desencadeante de trabalho muscular hiperativo e, sendo a musculatura a única força motriz do sistema estomatognático, suas disfunções  desequilibram o sistema. Pelo fato de estarmos escrevendo um livro de RNO aplicada, “Ajuste Oclusal  visando o Reequilíbrio  Funcional do Sistema Estomatognático”, temos feito  extensas pesquisas bibliográficas sobre oclusão. Elas nos  levam a afirmar que a necessidade da coincidência entre relação cêntrica e oclusão funcional para que haja  equilíbrio neuromuscular do sistema é muito pouco conhecida, divulgada e aplicada pela classe odontológica. Pela amostragem que temos de palestras proferidas para mais de dois mil colegas, aos quais fizemos inquirição a respeito, podemos dizer que, de modo geral,  é desconhecido o alcance da aplicação desse tão importante conceito de equilíbrio oclusal, enfatizado por Pedro Planas.

Quanto ao equilíbrio dinâmico da oclusão,  é maior ainda a separação  entre a RNO e  os  maiores nomes da odontologia internacional contemporânea.  A odontologia acadêmica segue a Escola Gnatológica de Oclusão, que prega a guia anterior ou desoclusão  em canino para os movimentos mastigatórios. Trata-se da oclusão mutuamente protegida, em que os dentes anteriores protegem os dentes posteriores durante a mastigação e os dentes posteriores protegem os anteriores durante a PIM.  A desoclusão de canino foi a maneira encontrada para a montagem de  próteses totais, na época em que a teoria focal estava em moda. Segundo essa teoria, de meados do século XX, as infecções dentárias poderiam causar  outras infecções em pontos distantes da boca, principalmente no coração, o que levou a classe a  extrair todos os dentes, substituindo-os por dentaduras artificiais.  Os estudos de oclusão se intensificaram para que fosse conseguida estabilidade nessas próteses. Concluiu-se que o que poderia ser bom para próteses, por alguma confusão da classe, poderia ser bom para os dentes naturais.  A oclusão por desoclusão de canino tem seus conceitos tão difundidos e aceitos, que os grandes nomes da odontologia atual  são seus adeptos sem questionamentos. Os trabalhos de pesquisa atuais são direcionados para que essa teoria seja confirmada,  o que tira seu mérito  científico e abate o espírito inovador.  Mastigação em grupo atualmente é considerada uma heresia odontológica, mas nós da RNO, somos hereges,  e em meu livro mostro,  que com orgulho e razão.

A mastigação em grupo, que  pode ser considerada  a viga mestra dos ensinamentos  de Pedro Planas, tem seu acerto  comprovado por duas razões centrais. Em primeiro lugar, pelos resultados de trabalhos de pesquisa, feitos com o homem contemporâneo e civilizado, que mostram resultados conflitantes com as teorias  de desoclusão em canino,  porque de 47 a 64%  dos examinados apresentam função em grupo na mastigação, enquanto apenas 2 a 17% apresentam  configuração em guia anterior.11,21

Em segundo lugar, pelos resultados de estudos feitos no homem contemporâneo, homo sapiens sapiens, mas com hábitos alimentares naturais e primitivos, que são  chamados,  nos estudos,  de homens primitivos.  Foram muitos os estudiosos que fizeram essas pesquisas em tribos  e povos  das mais diferentes etnias e em todos os continentes da Terra.1,2,3,4,16,17,18  Em meados do século passado, a intenção dos primeiros pesquisadores foi demonstrar que  a alimentação civilizada, com a inclusão de açúcares e farinhas, era a responsável pela cárie dental, mas a oclusão foi percebida e fotografada. Os pesquisadores mais recentes se dedicaram ao estudo da oclusão desses povos. O denominador comum  de todos os trabalhos publicados e reforçados por fotos e  filmagens é  a comprovação da  mastigação em grupo em todos os  povos pesquisados. No Brasil, temos também pesquisadores valorosos, que as fizeram em tribos indígenas que não apresentavam nenhuma contaminação com a alimentação civilizada.   Thomas Van Der Laan12  pesquisou  e fotografou a oclusão em duas tribos de índios Yanomanis. Resultados dessas pesquisas foram incluídos nos estudos de Pedro Planas como confirmação da RNO. Pereira15 e colegas realizaram pesquisas semelhantes com índios Yanomanis e Lenguas que foram  mostradas  em seu  livro de odontologia antropológica.  Todos esses autores confirmam a mastigação  naturalmente feita em grupo.

Se retrocedermos na história da raça humana, pela constatação  do desgaste  helicoidal das arcadas dentárias do homem verdadeiramente primitivo, como temos fartos exemplos com o homem do sambaqui no Brasil,  facilmente comprovamos que a raça humana sempre mastigou em grupo desde seus primórdios, sendo essa a mastigação que  estruturou filogeneticamente o sistema estomatognático. Se aplicarmos  na mastigação  o princípio de Claude Bernard, entenderemos por que a mastigação deve continuar a ser em grupo para a manutenção da higidez do sistema. A filogênese deve  sempre ser repetida na ontogênese,  porque somente a  função que estruturou um órgão no longo processo evolutivo  tem condições de  mantê-lo hígido. Para nós é tão evidente  essa verdade, que temos muita dificuldade em entender a posição da odontologia moderna quanto à mastigação.  

ALCANCE DA RNO

Pedro Planas, em sua genialidade, nos mostrou o caminho para conseguir a normalidade  funcional do sistema estomatognático, seu desenvolvimento pleno e a prevenção e reparação  da doença periodontal. Uma frase que engloba extensos conhecimentos e recursos de amplo espectro, que só pode ser avaliado pelos  estudiosos e conhecedores da  RNO.   Com base nesse conhecimento e nos resultados obtidos a partir da  aplicação da RNO em centenas de casos de ajustes oclusais e em múltiplos casos de reabilitação oral, para obtenção do equilíbrio oclusal na boca adulta, percebemos que a RNO possui um alcance maior que o enfocado por nosso mestre.

Sobre os resultados e remissões de disfunções  e desordens do sistema estomatognático após o reequilíbrio oclusal devemos em primeiro lugar lembrar que cada ser humano é único em sua herança genética, no que diz respeito às manifestações de desordens  e disfunções e  reparações tissulares.  Cada ser humano é único também quanto às sensações de dor e sofrimento. Devido a isso só podemos falar de modo genérico sobre o maior alcance da RNO aplicada em boca adulta.

A primeira consequência da coincidência de oclusão cêntrica com oclusão funcional  é a normalização do trabalho muscular, desde que feita também  coincidente à  RCM. O ajuste oclusal  usando os conceitos de Pedro Planas,  desde que levando a  mandíbula à sua  verdadeira relação cêntrica em repouso e em PIM,  resulta em trabalho muscular fisiológico.

Vários autores comprovaram que a disfunção neuromuscular pode levar a hábitos parafuncionais e ao incremento do bruxismo.6 A tranquilidade neuromuscular costuma  levar à remissão da parafunções e melhora nos quadros de bruxismo. Como os desequilíbrios oclusais acarretam  hiperatividade muscular, que pode  causar  dores de cabeça,1  a volta ao trabalho fisiológico leva  à remissão  dessas dores. Se houver dor remanescente, será devida  a  fatores  emocionais que também são causa de hiperatividade  da musculatura mastigatória.9,10  Estudos comprovam também  que herança genética, estados emocionais de estresse e ansiedade estão associados  à diminuição na concentração de neurotransmissores do SNC,  que influenciam na inibição da dor. 9,10

As prematuridades oclusais são sempre unilaterais e causam hiperatividade da musculatura ipsilateral. Como os músculos hiperativos não atingem o tônus postural de repouso, não atingem também seu comprimento de repouso. Pares musculares com comprimentos bilaterais diferentes desviam a mandíbula e os côndilos para o lado mais curto. Uma característica da função  neuromuscular  normal é que os pares musculares  apresentam bilateralmente  o mesmo comprimento, o que  mantém a mandíbula quando em repouso centralizada em relação ao crânio, e os côndilos centralizados nas cavidades articulares. Essa relação maxilo-mandibular fisiológica dá às estruturas articulares a  possibilidade de reparação. Por outro lado, como a maioria das dores articulares é  de origem miogênica,  a fisiologia do trabalho muscular modifica o quadro doloroso das ATMs.7

A relação da oclusão com o posicionamento da cabeça  e do corpo é fato comprovado e aceito pela comunidade científica.5,20. Em nosso trabalho clínico é rotina equilibrar a oclusão e ter como consequência  a modificação da má postura de origem oclusal, da cabeça e do corpo.  A  possibilidade de reversão postural  da cabeça e do corpo está ligada diretamente ao estado da musculatura, que sustenta o desvio postural.  Quando a musculatura  está hipertrofiada, como é comum na musculatura do pescoço, será necessário que ela volte a poder atingir seu tônus de repouso, o que pode levar até anos, com necessidade de  tratamento fisioterápico concomitante.

Como último item do alcance da aplicação da RNO no adulto, através de ajuste de oclusão, vamos voltar nossas vistas à importância que a  sociedade atual  dá à estética. A busca do reequilíbrio oclusal costuma deixar mais harmônicos  os contornos incisais  das arcadas, como consequência da  função também harmônica. Por outro lado a mastigação em grupo que automaticamente leva o alimento à zona dos molares requer o uso da musculatura oral e perioral para  ai retê-lo. A mastigação em charneira, que é a mais comum deixa hipotônica, a musculatura da face. O exercício muscular requerido pela mastigação em grupo leva  a musculatura da face a seu tônus normal, o que causa grande rejuvenescimento. É um preenchimento natural que sempre embeleza homens e mulheres.

Para finalizar é preciso pensar no paciente com desequilíbrios oclusais, como um ser humano total em seus aspectos sociais e  emocionais, além dos sintomas clínicos. Podem apresentar  dores de cabeça, às vezes alucinantes pedindo internação esporádica, às vezes só muito fortes, mas sempre acompanhadas de  desconforto no sistema mastigatório. Podem sentir  também dores na  nuca,  pescoço, omoplatas, e na região lombar. As dores podem ser sentidas da cintura até as pernas e do pescoço até as mãos. Podem ter tonturas, e palpitações, podem tropeçar e torcer os pés com facilidade. Muitos apresentam  impossibilidade de comer  e digerir comidas duras. Outros sentem  desconforto e dores articulares. Essas não são todas, mas são as consequências mais comuns dos  desequilíbrios oclusais e  que  costumam se refletir negativamente  na vida  pessoal, profissional e emocional dos indivíduos.

Quem nos procura geralmente nos  é indicado por ser um sofredor, nas mais diferentes gradações e nos mais diferentes aspectos, que nem sempre é só o doloroso. O resgate dessa situação para a normalidade,  excetuando-se o periodonto com perdas irreparáveis, é quase sempre total. É uma realidade em nosso cotidiano clínico, porque através do reequilíbrio da oclusão atingimos não só o sistema estomatognático, mas o  todo corpóreo postural do indivíduo.

O resgate do sofrimento costuma representar a volta  para a normalidade de vida e geralmente da alegria de viver. A mudança que costuma acontecer em vários aspectos da vida de nossos pacientes leva  alguns a chamar nossos tratamentos de milagrosos. Possibilidade que acontece graças aos ensinamentos de nosso amado mestre Pedro Planas.

Marilis Ferreira De Francisco
Sócia fundadora da ABPPRNO
e-mail : marilisffrancisco@terra.com.br
blog: www.ajusteoclusal.com

 

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